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Contos que encantam
Contos que encantam

 

* Alguns contos rápidos extraídos do meu livro "Lampejos de Sonhos", publicado pela Editora AgBook/SP:

  

                       FAZENDA CREPÚSCULO DOURADO


            O sol desaparece lentamente no horizonte sem fim.

            Cavalos brancos, negros, castanhos e malhados pastam tranquilamente.

            A pastagem é macia e de um verde brilhante.

            A natureza toda nessa época do ano resplandece de vida e beleza.

            Estamos na primavera.

            O ar puro e levemente perfumado parece causar às pessoas aqui presentes uma leveza espiritual imensa, pois todas mantêm o semblante radiante e um leve sorriso nos lábios, apesar do trabalho estafante que executam.

            Entre os animais e as flores também posso perceber a mesma paz tão grandiosa.

            Sinto o espírito leve e o corpo cansado, mas um cansaço gostoso que não aborrece, pois passei todo o dia a correr pelos campos colhendo flores silvestres e frutas deliciosas.

            Esquecendo completamente a realidade, chego até a conversar com os pássaros e sentir a sensação de receber respostas agradáveis das coloridas e pequenas criaturas maravilhosamente lindas e felizes.

            Sinto uma grande emoção ao ver os cavalos fortes de crinas e caldas longas e de pelos reluzentes galoparem livremente em seu pequeno mundo verde.

            Posso sentir a felicidade nos olhares dos cães. Os latidos não transmitem raiva e sim alegria. As caldas peludas balançam de um lado para o outro sem parar.

            Quem não sentiria alegria diante de tanta liberdade ao seu redor?

            Quem não sentiria alegria ao respirar o ar puro e fresco existente aqui?

            Abelhas pequeninas produzindo mel, indiferentes a tudo, porque nada as perturba neste lugar tranquilo.

            Bois robustos e saudáveis soltam mugidos longos e sonoros, demonstrando plena satisfação pela vida.

            Estou fascinada com o ambiente acolhedor e cativante deste lugar singelo.

            Chego até mesmo quase esquecer o mundo agitado e enervante onde vivo ou simplesmente existo.

            Dedico toda a atenção inteiramente a essa maravilha tão rara aos meus olhos cansados da civilização.

            Estou debruçada muito quieta na janela azul da grande casa branca, admirando tudo extasiada. Não permitiria jamais que o menor detalhe me passasse despercebido. Ah, isso jamais!...

            Quero aproveitar ao máximo os últimos momentos cheios de pureza e felicidade que sinto aqui. Amanhã, bem cedo, a realidade vai me separar de todo esse pequeno mundo maravilhoso e aparentemente ilusório.

            Agora o sol já desapareceu totalmente e o crepúsculo tomou conta do infinito, dando-me a sensação radiante de estar flutuando no espaço desconhecido, pois toda a vegetação recebe um brilho dourado e irreal. E é neste exato momento que compreendo o significado do nome poético e sugestivo desta fazenda:

                             "CREPÚSCULO DOURADO".


            Fico pensando em como pode existir tanta beleza num local tão minúsculo do planeta...

            Tudo o que vejo é magnífico e quase não consigo encontrar palavras para expressar o que sinto diante desta natureza divina e colorida.

            A noite finalmente cobriu com seu manto negro todas as cores deslumbrantes da região. Mas percebo que mesmo na escuridão nada perdeu o encanto, porque todo o cenário lindo ficará gravado na tela mágica da minha memória. Com as mesmas cores, o mesmo brilho dourado e a mesma tranquilidade... tão peculiares ao pequeno e distante paraíso que hoje conheci... e que amanhã perderei.

            Vou perdê-lo sim. Mas, como consolo levarei comigo a imagem sublime e multicolorida deste vale encantado e de sonhos reais.

 

 

 

 

                                                VIDA NO SÍTIO


            O pombinho Cinzento arrulhou animado em sua casinha, pedindo para sair... Seis horas da manhã! Hora de levantar e começar as atividades diárias. Mas, antes soltarei o inquieto Cinzento e depois desejarei um bom dia ao sítio "Recanto das Aves".

            Solenemente, como todas as manhãs, abro a porta da sala e fico em fascínio silencioso admirando o verde da mata à minha frente, quase coberta pela névoa densa e fria.

            Sinto pousar na pele uma finíssima e suave chuvinha fresca. É a neblina se desfazendo para dar lugar ao sol dourado e quente que se faz anunciar por trás dos montes.

            Ao longe ouço a algazarra de alegres e estridentes maritacas que se aproximam, passando sobre o jardim e desaparecendo, misturando-se com o verde da mata.

            Em seguida sabiás, melros, sanhaços e tantos outros vão chegando para saborear as frutas colocadas por mim no jardim, especialmente para eles.

            Sento na calçada e fico quieta admirando a delicada beleza de cada um, e ouvindo extasiada o entrelaçado cantar de todos ao mesmo tempo.

            Sinto-me em estado de graça e faço uma doce oração, diante do silêncio cheio de notas musicais se espalhando pelo ar fresco e puro da natureza.

            Levanto-me e vou colocar canjiquinha para os outros passarinhos na porta da cozinha e lá na área coberta pelas árvores de verde brilhante.

            Vão surgindo de todos os lados tímidos canários da terra, desinibidos tico-ticos, delicadas rolinhas, pombinhas nativas que parecem observar coquetes o solitário Cinzento.

            Em seguida, deixo-os tranquilos fazendo sua primeira refeição do dia e vou para o jardim cumprimentar as rosas e suas amigas coloridas e perfumadas.

            Fico embevecida com tanta singeleza.

            Tiro um matinho aqui, outro ali...

            Volto para dentro de casa, cheia de vigor e de uma disposição misteriosa que todas as manhãs encontro lá fora, sempre da mesma forma.

            Estou pronta para iniciar os afazeres do dia!...

 

 

                                    

                                                    PESADELO


            Estava parada na soleira da porta, admirando a bela paisagem que se descortinava à sua frente, quando algo frio tocou em seu braço.

            Olhou assustada e deparou com um ser estranhamente bonito, de olhar penetrante e enigmático. Apavorou-se, mas conseguiu se conter.

            Aquele ser fascinante puxou-a suavemente para fora. Quis reagir, mas algo estranho dentro dela fez com que obedecesse docilmente.

            Andaram por um estreito caminho. Aos poucos, foi surgindo ao longe um objeto brilhante.

            Aproximaram-se.

            Tratava-se de um grande e exótico aparelho semelhante a um chapéu com imensas abas. Tudo à sua volta recebia uma    iluminação prateada, maravilhosa, inexistente para ela. Aquilo era absolutamente assustador e lindo! Quis dizer alguma coisa, mas a voz não saiu.

            O ser, impassível, continuou a caminhar ao seu lado sem tocá-la.

Deus, o que seria aquilo? Estaria enlouquecendo? Jamais viveu algo parecido. O que acontecia, afinal? Por que não conseguia reagir, gritar, lutar?!...

Sentia-se hipnotizada.

O ser gesticulou com a mão e uma enorme e pesada porta se abriu lentamente.

Entraram.

O interior do aparelho era ainda mais fascinante. Tudo brilhava. Um brilho estonteante e que ao mesmo tempo causava uma paz interior profunda, como jamais havia sentido.

Viu uma cadeira no centro daquilo que parecia ser a sala de controle.

Encaminhou-se para ela e sentou como se tivesse recebido ordem para isso.

O ser se afastou dela e começou a apertar botões coloridos num grande painel branco. O aparelho produziu um som baixo e suave.

            Para onde estariam indo? Por que tudo aquilo estaria acontecendo com ela? Estava terrivelmente amedrontada, mas sentia um fascínio inexplicável por tudo aquilo.

De repente, toda a beleza do ambiente se transformou, passando por uma total metamorfose. O brilho prateado se apagou e o interior foi iluminado fracamente por uma luz avermelhada. O ser, antes tão fascinante, apareceu diante dela monstruoso, macabro. Quis gritar e mais uma vez não conseguiu. Seu grito se perdeu no fundo de sua alma desesperada.

O monstro agarrou o braço dela, puxou-a com brutalidade, abriu a porta e, sem piedade, empurrou-a para o espaço sem fim.

Gritou e desta vez sua garganta emitiu apenas um gemido lamentável.

Tudo desapareceu à sua volta e continuou caindo na escuridão. Sentia o coração apertado por uma angústia louca. Teve certeza que tinha chegado sua hora final. A morte estava cada vez mais próxima. Logo seria o fim de tudo.

De repente, foi sacudida violentamente por duas mãos enormes e fortes.

Gritou com todas as suas forças e pôde, finalmente, ouvir seu próprio grito. Abriu os olhos e viu diante de si um rosto amigo assustado.

- Querida, está sentindo alguma coisa?!...

Com um suspiro de alívio, só conseguiu agradecer num fio de voz:

- Obrigada, Meu Deus, foi só um terrível pesadelo!

 

 

 

                                            BORBOLETAS AMARELAS

 


            Uma nuvem amarela era vista à longa distância. Diminuindo cada vez mais a distância, aumentava de tamanho e intensificava o amarelo que já podia ser identificado como amarelo ouro. Mas continuava sendo apenas uma enorme nuvem amarela no espaço azul celeste.

            Aproximava-se cada vez mais, e da varanda a jovem Marza olhava para o céu, muito curiosa e admirada.

            A nuvem amarela desapareceu atrás de um morro coberto de vegetação, para logo depois reaparecer em contraste simbólico com o verde.

            Nos poucos minutos que não pôde vê-la, Marza, a mocinha morena de cabelos castanhos aveludados e de olhos amendoados, demonstrou decepção, mas logo voltou a ver aquela nuvem amarela tão diferente no céu, e sorriu satisfeita. Sentia-se fascinada e muito curiosa por saber do que se tratava.

            Aos poucos a nuvem compacta ia transformando-se em pontinhos no céu, mostrando movimentos próprios.

            Uma forte rajada de vento separou aqueles pontinhos amarelos, mas apenas por alguns segundos, pois como que ligados por fio invisível tornaram a se juntar.

            Agora o contraste era novamente com o azul do céu límpido.

            A nuvem amarela vinha em direção ao jardim da casa de Marza que estava perplexa. O que será aquilo? - Pensou a garota.

            No jardim de Marza reuniam flores de várias qualidades, coloridas e perfumadas, que seriam capazes de atraír até o mais insensível de todos os seres. Era, sem dúvida, um jardim que deixaria deslumbrados os melhores jardineiros dos palácios de contos de fadas.

            Agora a nuvem voltou a se separar em pequenos pontos e esses pontos já começavam a se transformar em figuras reais. Já podia distinguir as mais belas borboletas amarelas. Um espetáculo maravilhoso aos olhos extasiados de Marza.

            Finalmente chegaram ao seu destino. Cada uma pousou suavemente na flor que mais lhe agradou, descansando as delicadas asinhas.

            A julgar pela naturalidade e segurança que demonstravam, pareciam as donas do mundo.

            Podia-se perceber a imensa felicidade, a paz de espírito e a alegria que pairavam no ar, emanadas pela tranquilidade e beleza de tão pequeninas e puras criaturinhas amarelas.

            Marza sorriu feliz, considerando-as suas, já que estavam em seu jardim.             

 

  

                                                 RECORDAÇÕES


Sentada na cadeira de balanço estava a velha senhora pensativa e solitária.

Balançava suavemente a cadeira sem sentir os movimentos. Seu pensamento estava fora do seu corpo, da sua ação.

Da varanda onde se encontrava tão absorta, tomando seu chá fumegante, parecia ver a doce e meiga menina de longas tranças e sardas no rosto rosado, correndo no vasto campo verde e macio ao lado de seu companheiro de travessuras, um menino moreno de grandes olhos castanhos.

Podia ouvir com nitidez seus gritos de alegria infantil. À sua volta, lindas flores silvestres e o ar puro e saudável, ainda existentes nas fazendas.

Haviam brincado juntos desde a mais tenra idade.

Era uma amizade infantil, mas que podia ser percebida em seus olhares que em breve se transformaria num sentimento mais forte.

Agora via diante de seus olhos cansados, a mesma menina de tranças e sardas transformada em mulher esbelta e delicada em seus dezoito anos.

Seus olhos estavam perdidos na estrada, esperando alguém muito importante para ela. Alguém que há muito tempo não via: o menino moreno de grandes olhos castanhos e ar travesso. Ela sabia que não surgiria diante dela o menino, mas um homem feito que ela nem podia  imaginar a sua atual aparência.

Logo ouviu o barulho débil do motor de carro dos anos vinte.

Sentindo o coração acelerar as batidas, esperou ansiosa.

Ali estava diante dela o rapaz forte e lindo, com o mesmo ar travesso no semblante simpático. Ele tinha agora vinte e dois anos.

Juntos caminharam em silêncio, com os corações repletos de amor.

Pouco tempo depois desse encontro, com a presença apenas de parentes e amigos íntimos, era realizado na capela da fazenda o seu sonho de amor eterno.

Passaram-se os primeiros anos de feliz união. Parecia que toda a felicidade do universo estava naquele lar maravilhoso.

Não tiveram filhos, mas souberam superar esta falta com tanta dignidade que nada mudou entre eles.

Veio a guerra e com ela a destruição inevitável.

Ele partiu para nunca mais voltar.

Ela ficou somente com as mais belas recordações e a tristeza estampada em seu rosto singelo.

Jamais abandonou a fazenda onde viveu com ele tanta felicidade.

Agora estava sentada na sua antiga cadeira de balanço, em movimentos suaves, com o olhar perdido no verde dos campos e o pensamento voltado para o passado tão distante. Um passado que lhe havia deixado tão belas recordações, mas que havia também tirado bruscamente a sua alegria de viver.

Mas após tantos anos aprendeu a conviver com a resignação.

Sentia-se feliz novamente, pois agora sabia que em breve estaria ao lado daquele que tanto amou e que sabia estar esperando por ela em algum lugar ainda mais maravilhoso que a sua querida fazenda. E então estariam juntos para sempre, para continuarem a felicidade que havia sido interrompida bruscamente um dia.

 

 

                                       PARAÍSO AOS MEUS OLHOS


            A pequena gaivota batia as asas brancas no ar num ritmo perfeito. Seu corpo fazia movimentos graciosos no espaço.

            O céu estava incrivelmente azul, misturando-se com o azul do mar em calmaria.

            A gaivota parecia sentir-se como o único ser existente no mundo. Às vezes deixava-se levar pelo vento suave de um lado para o outro, descansando as asas.

            O único som ouvido era produzido pelas pequenas ondas quebrando na praia de fina areia branca.

            O pequeno ser alado continuava as piruetas no ar, alheio a tudo. Certamente, do alto podia admirar a beleza lá embaixo: o mar calmo, a areia branca, os coqueiros balançando as folhas ao vento, as árvores de verde brilhante acompanhadas da baixa vegetação completando o cenário tranquilizador.

            Do alto de uma colina eu observava maravilhada e silenciosa aquele quadro belíssimo, semelhante aos quadros mais lindos descritos nos contos infantis.

            Tive ligeira impressão de estar realmente sonhando, pois parecia impossível existir tanta beleza e tranquilidade num mundo tão cheio de agitação.

 Nunca havia pensado poder algum dia encontrar aqui o paraíso. No entanto, ali estava diante dos meus olhos perplexos.

            Fiquei parada a meditar sobre o que presenciava naquele instante.

            Meus olhos acostumados às impurezas de cenas grotescas da cidade grande, quase não acreditavam em tanta beleza, em tanta paz.

            Aquele pássaro demonstrava a serenidade de quem vive alheio a tudo o que se passa constantemente pelo mundo.

            Se pudesse ficaria ali para sempre, admirando tudo aquilo que parecia não existir.

            Se pudesse não sairia dali nunca mais, para não despertar daquele sonho lindo, para não voltar à verdadeira realidade da vida.

            Se eu pudesse... levaria para aquele lugar, o resto do mundo perdido lá fora!

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