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Poemas Imortais
Poemas Imortais

Esta página foi reservada, exclusivamente, para os Imortais. Se você curte, não deixe de ler! 

 

O Tempo (Carlos Drummond de Andrade) 

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, 
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.

Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...

Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.

E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade.”
 

Metade  (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, 
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. 
E que o teu silêncio me fale cada vez mais. 
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. 
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.

 

 ISMÁLIA (Alphonsus de Guimaraens) 

Quando Ismália enlouqueceu,

pôs-se na torre a sonhar.

Viu uma lua no céu,

viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu.

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu.

Estava longe do mar.

E como um anjo pendeu

as asas para voar...

Queria a lua do céu,

queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

seu corpo desceu ao mar... 

 

Poema de Sete Faces (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 

 As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

 

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

 

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo, mundo, vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo,  mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

 

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

 

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional. (Carlos Drummond de Andrade)

 

Recomeçar (Drummond)

Não importa onde você parou...

Em que momento da vida você cansou...

O que importa é que sempre é possível e necessário "RECOMEÇAR".

RECOMEÇAR é dar uma nova chance a si mesmo...

É renovar as esperanças na vida e, o mais importante...

Acreditar em você de novo.

Sofreu muito neste período?

Foi aprendizado...

Chorou muito?

Foi limpeza da alma...

Ficou com raiva das pessoas?

Foi para perdoá-las um dia...

Sentiu-se só por diversas vezes?

É porque fechaste a porta até para os anjos...

Acreditou em tudo que estava perdido?

Era o início de tua melhora...

Onde você quer chegar?

Ir alto?

Sonhe alto...

QUEIRA O MELHOR DO MELHOR...

Se pensamos pequeno...

Coisas pequenas teremos...

Mas se desejarmos fortemente o melhor e

PRINCIPALMENTE LUTARMOS PELO MELHOR...

O melhor vai se instalar em nossa vida.

Porque sou do tamanho daquilo que vejo.

E não do tamanho da minha altura."

Carlos Drummond de Andrade

 

Porque (Carlos Drummond de Andrade)

 

Amor meu, minhas penas, meu delírio,

Aonde quer que vás, irá contigo

Meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma,

Sabendo embora ser perdido intento

O de cingir-te forte de tal modo

Que, desde então se misturando as partes,

Resultaria o mais perfeito andrógino

Nunca citado em lendas e cimélios

Amor meu, punhal meu, fera miragem

Consubstanciada em vulto feminino,

Por que não me libertas do teu jugo,

Por que não me convertes em rochedo,

Por que não me eliminas do sistema

Dos humanos prostrados, miseráveis,

Por que preferes doer-me como chaga

E fazer dessa chaga meu prazer?

 

A Um Ausente (Carlos Drummond de Andrade)

 

Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral, a comum aquiescência

de viver e explorar os rumos de obscuridade

sem prazo sem consulta sem provocação

até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.

Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.

Que poderias ter feito de mais grave

do que o ato sem continuação, o ato em si,

o ato que não ousamos nem sabemos ousar

porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mãos, nem isso, voz

modulando sílabas conhecidas e banais

que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

porque o fizeste, porque te foste.

 

Inconfesso Desejo (Carlos Drummond de Andrade)

 

Queria ter coragem

Para falar deste segredo

Queria poder declarar ao mundo

Este amor

Não me falta vontade

Não me falta desejo

Você é minha vontade

Meu maior desejo

Queria poder gritar

Esta loucura saudável

Que é estar em teus braços

Perdido pelos teus beijos

Sentindo-me louco de desejo

Queria recitar versos

Cantar aos quatros ventos

As palavras que brotam

Você é a inspiração

Minha motivação

Queria falar dos sonhos

Dizer os meus secretos desejos

Que é largar tudo

Para viver com você

Este inconfesso desejo

 

 

A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

 

A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil de meia verdade,

E a sua segunda metade

Voltava igualmente com meios perfis

E os meios perfis não coincidiam verdade...

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta,

Chegaram ao lugar luminoso

Onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual

a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar.

Cada um optou conforme

Seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.

 

As Sem-razões do Amor (Carlos Drummond de Andrade)

 

Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

  

Ausência (Carlos Drummond de Andrade)

 

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

 

Os Ombros Suportam o Mundo (Drummond)

 

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

Quadrilha (Carlos Drummond de Andrade)

 

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava

Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos,

Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou pra tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

  

A Língua Lambe (Carlos Drummond de Andrade)

 

A língua lambe as pétalas vermelhas

da rosa pluriaberta; a língua lavra

certo oculto botão, e vai tecendo

lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,

a licorina gruta cabeluda,

e, quanto mais lambente, mais ativa,

atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos

de leões na floresta, enfurecidos

 

Para Sempre (Drummond)

 

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

 

Fazenda (Drummond)

 

Vejo o Retiro: suspiro

no vale fundo.

O Retiro ficava longe

do oceano mundo.

Ninguém sabia da Rússia

com sua foice.

A morte escolhia a forma

breve de um coice.

Mulher, abundavam negras

socando milho.

Rês morta, urubus rasantes,

logo em concílio.

O amor das éguas rinchava

no azul do pasto.

E criação e gente, em liga,

tudo era casto..

  

Se Eu Morresse Amanhã (Álvares de Azevedo)

 

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã,

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

Que sol! Que céu azul! Que doce n’alva

Acorda ti natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã...

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!

 

Minha Desgraça (Álvares de Azevedo)

 

Minha desgraça não é ser poeta,

Nem na terra de amor não ter um eco,

E meu anjo de Deus, o meu planeta

Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,

Ter duro como pedra o travesseiro...

Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido

Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,

O que faz que o meu peito blasfema,

É ter para escrever todo um poema

E não ter um vintém para uma vela.

 

Anjos do Céu (Álvares de Azevedo)

 

As ondas são anjos que dormem no mar,

Que tremem, palpitam, banhados de luz...

São anjos que dormem, a rir e sonhar

E em leito d'escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua

Seus raios incertos tremer, pratear,

E a trança luzente da nuvem flutua,

As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham- e o vento dos céus

Vem tépido à noite nos seios beijar!

São meigos anjinhos, são filhos de Deus,

Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram,

São puros fervores de ventos e mar:

São beijos que queimam... e as noites deliram,

E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor

Os ventos e vagas gemer, palpitar,

Por que não consentes, num beijo de amor

Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?

 

Adeus, Meus Sonhos! (Álvares de Azevedo)

 

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!

Não levo da existência uma saudade!

E tanta vida que meu peito enchia

Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! Votei meus pobres dias

À sina doida de um amor sem fruto,

E minh'alma na treva agora dorme

Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?

Morra comigo

A estrela de meus cândidos amores,

Já não vejo no meu peito morto

Um punhado sequer de murchas flores! 

 

Amor (Álvares de Azevedo)

 

Amemos! Quero de amor

Viver no teu coração!

Sofrer e amar essa dor

Que desmaia de paixão!

Na tu'alma, em teus encantos

E na tua palidez

E nos teus ardentes prantos

Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber

Os teus amores do céu,

Quero em teu seio morrer

No enlevo do seio teu!

Quero viver d'esperança,

Quero tremer e sentir!

Na tua cheirosa trança

Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,

Minha'alma, meu coração!

Que noite, que noite bela!

Como é doce a viração!

E entre os suspiros do vento

Da noite ao mole frescor,

Quero viver um momento,

Morrer contigo de amor!

 

Soneto (Álvares de Azevedo)

 

Pálida, à luz da lâmpada sombria,

Sobre o leito de flores reclinada,

Como a lua por noite embalsamada,

Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria

Pela maré das águas embalada!

Era um anjo entre nuvens d'alvorada

Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...

Negros olhos as pálpebras abrindo...

Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!

Por ti - as noites eu velei chorando,

Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

 

Mãe (Mário Quintana)

 

Mãe... São três letras apenas

As desse nome bendito:

Também o Céu tem três letras...

E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,

Todo o bem que se disse

Nunca há de ser tão grande

Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,

Bem sabem os lábios meus

Que és do tamanho do Céu

E apenas menor que Deus!

 

Data e Dedicatória (Mário Quintana)

 

Teus poemas, não os dates nunca... Um poema

Não pertence ao Tempo... Em seu país estranho,

Se existe hora, é sempre a hora estrema

Quando o anjo Israel nos estende ao sedento

Lábio o cálice inextinguível...

Um poema é de sempre, Poeta:

O que tu fazes hoje é o mesmo poema

Que fizeste em menino,

É o mesmo que,

Depois que tu te fores,

Alguém lerá baixinho e comovidamente,

A vivê-lo de novo...

A esse alguém,

Que talvez ainda nem tenha nascido,

Dedica, pois, os teus poemas.

Não os dates, porém:

As almas não entendem disso...

 

Viver (Mário Quintana)

 

Quem nunca quis morrer

Não sabe o que é viver

Não sabe que viver é abrir uma janela

E pássaros sairão por ela

E hipocampos fosforescentes

Medusas translúcidas

Radiadas

Estrelas-do-mar... Ah,

Viver é sair de repente

Do fundo do mar

E voar...

e voar...

cada vez para mais alto

Como depois de se morrer!

 

Os Poemas (Mário Quintana)

 

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

 

Confissão (Mário Quintana)

 

Que esta minha paz e este meu amado silêncio

Não iludam a ninguém

Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta

Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios

Acho-me relativamente feliz

Porque nada de exterior me acontece...

Mas,

Em mim, na minha alma,

Pressinto que vou ter um terremoto!

 

Canção Para Uma Valsa Lenta (Mário Quintana)

 

Minha vida não foi um romance...

Nunca tive até hoje um segredo.

Se me amas, não digas, que morro

De surpresa… de encanto… de medo...

Minha vida não foi um romance...

Minha vida passou por passar.

Se não amas, não finjas, que vivo

Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...

Pobre vida… passou sem enredo...

Glória a ti que me enches a vida

De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...

Ai de mim… Já se ia acabar!

Pobre vida que toda depende

De um sorriso... de um gesto... um olhar...

  

Ah! Os Relógios (Mário Quintana)

 

Amigos, não consultem os relógios

quando um dia eu me for de vossas vidas

em seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida - a verdadeira -

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém - ao voltar a si da vida -

acaso lhes indaga que horas são...

 

Presença (Mário Quintana)

 

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

a folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

 

Bilhete (Mário Quintana)

 

Se tu me amas,

ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,

deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,

...tem de ser bem devagarinho,

...amada,

...que a vida é breve,

...e o amor

...mais breve ainda.

 

Canção do Dia de Sempre (Mário Quintana)

 

Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas…

 

(Mário Quintana)

 

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada...

Arde um toco de vela, amarelada...

Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!

Ah! Desta mão, avaramente adunca,

Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!

Que a luz, trêmula e triste como um ai,

A luz do morto não se apaga nunca!

 

Canção do Amor Imprevisto (Mário Quintana)

 

Eu sou um homem fechado.

O mundo me tornou egoísta e mau.

E a minha poesia é um vício triste,

Desesperado e solitário

Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,

Com o teu passo leve,

Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender

nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil

Aonde viessem pousar os passarinhos.

 

Desencanto (Manuel Bandeira)

 

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

Eu faço versos como quem morre.

 

Vou-me Embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira)

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

Lá sou amigo do rei

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Testamento (Manuel Bandeira)

 

O que não tenho e desejo

É que melhor me enriquece.

Tive uns dinheiros - perdi-os...

Tive amores - esqueci-os.

Mas no maior desespero

Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.

Por outras terras andei.

Mas o que ficou marcado

No meu olhar fatigado,

Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:

Não tive um filho de meu.

Um filho!... Não foi de jeito...

Mas trago dentro do peito

Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino

Para arquiteto meu pai.

Foi-se-me um dia a saúde...

Fiz-me arquiteto? Não pude!

Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.

Não faço porque não sei.

Mas num torpedo-suicida

Darei de bom grado a vida

Na luta em que não lutei! 

 

Carta-Poema (Manuel Bandeira)

 

Excelentíssimo Prefeito

Senhor Hildebrando de Góis,

Permiti que, rendido o preito

A que fazeis jus por quem sois,

Um poeta já sexagenário,

Que não tem outra aspiração

Senão viver de seu salário

Na sua limpa solidão,

Peça vistoria e visita

A este pátio para onde dá

O apartamento que ele habita

No Castelo há dois anos já.

É um pátio, mas é via pública,

E estando ainda por calçar,

Faz a vergonha da República

Junto à Avenida Beira-Mar!

Indiferentes ao capricho

Das posturas municipais,

A ele jogam todo o seu lixo

Os moradores sem quintais.

Que imundície! Tripas de peixe,

Cascas de fruta e ovo, papéis...

Não é natural que me queixe?

Meu Prefeito, vinde e vereis!

Quando chove, o chão vira lama:

São atoleiros, lodaçais,

Que disputam a palma à fama

Das velhas maremas letais!

A um distinto amigo europeu

Disse eu: - Não é no Paraguai

Que fica o Grande Chaco, este é o

Grande Chaco! Senão, olhai!

Excelentíssimo Prefeito

Hildebrando Araújo de Góis

A quem humilde rendo preito,

Por serdes vós, senhor, quem sois!

Mandai calçar a via pública

Que, sendo um vasto lagamar,

Faz a vergonha da República

Junto à Avenida Beira-Mar!

 

Poemeto Erótico (Manuel Bandeira)

 

Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,

É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes

É puro como nas fontes

A água clara que serpeja,

Que em cantigas se derrama...

Volúpia de água e da chama...

A todo momento o vejo...

Teu corpo... a única ilha

No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa, flor de laranjeira...

 

Renúncia (Manuel Bandeira)

 

Chora de manso e no íntimo... Procura

Curtir sem queixa o mal que te crucia:

O mundo é sem piedade e até riria

Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.

Aprende a amá-la que a amarás um dia.

Então ela será tua alegria,

E será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...

Sofre sereno e de alma sobranceira,

Sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira.

E pede humildemente a Deus que a faça

Tua doce e constante companheira...

 

Arte de Amar (Manuel Bandeira)

 

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

 

Fernando Pessoa

Onde você vê um obstáculo,

alguém vê o término da viagem

e o outro vê uma chance de crescer.

Onde você vê um motivo pra se irritar,

Alguém vê a tragédia total

E o outro vê uma prova para sua paciência.

Onde você vê a morte,

Alguém vê o fim

E o outro vê o começo de uma nova etapa...

Onde você vê a fortuna,

Alguém vê a riqueza material

E o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.

Onde você vê a teimosia,

Alguém vê a ignorância,

Um outro compreende as limitações do companheiro,

percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.

E que é inútil querer apressar o passo do outro,

a não ser que ele deseje isso.

Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar.

"Porque eu sou do tamanho do que vejo.

E não do tamanho da minha altura."

 

Fresta (Fernando Pessoa)

 

Em meus momentos escuros

Em que em mim não há ninguém,

E tudo é névoas e muros

Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte

De onde em mim sou aterrado,

Vejo o longínquo horizonte

Cheio de sol posto ou nado

Revivo, existo, conheço,

E, ainda que seja ilusão

O exterior em que me esqueço,

Nada mais quero nem peço.

Entrego-lhe o coração.

 

Não Sei Quantas Almas Tenho (Fernando Pessoa)

 

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não atem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que sogue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: “Fui eu?”

Deus sabe, porque o escreveu.

 

 

Vaga, no azul amplo solta, vai uma nuvem errando... (Fernando Pessoa)

 

Vaga, no azul amplo solta,

Vai uma nuvem errando.

O meu passado não volta.

Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.

Entra mais na alma da alma.

Mas como, no céu sem gente,

A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza

E a lembrança é que entristece,

Dou à saudade a riqueza

De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora

Na minha amarga ansiedade

Mais alto que a nuvem mora,

Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto

À alma que o saiba bem.

Visto da dor com que minto

Dor que a minha alma tem.

 

Cai Chuva do Céu Cinzento (Fernando Pessoa)

 

Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma, mas pesa

O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não.

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração.

 

O Amor, Quando Se Revela (Fernando Pessoa)

 

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar pra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...

 

Soneto da Fidelidade (Vinícius de Morais)

E tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meus pensamentos

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure

 

Soneto do Amor Total (Vinícius de Morais)

 

Amo-te tanto meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

 

Soneto de Devoção (Vinícius de Morais)

 

Essa mulher que se arremessa, fria

E lúbrica em meus braços, e nos seios

Me arrebata e me beija e balbucia

Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia

Que se ri dos meus pálidos receios

A única entre todas a quem dei

Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama

A miséria e a grandeza de quem ama

E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! - uma cadela

Talvez... - mas na moldura de uma cama

Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

 

Ausência (Vinícius de Morais)

 

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...

No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...

E em minha voz, a tua voz...

Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...

Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...

Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face...

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...

porque eu fui o grande íntimo da noite...

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...

Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,

serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.

 

Vinícius de Morais

 

Ai, quem me dera terminasse a espera

Retornasse o canto simples e sem fim

E ouvindo o canto se chorasse tanto

Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai, quem me dera ver morrer a fera

Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.

Ai, quem me dera uma manhã feliz.

Ai, quem me dera uma estação de amor

Ah, se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais

Ai, quem me dera ao som de madrigais

Ver todo mundo para sempre afim

E a liberdade nunca ser demais

E não haver mais solidão ruim

Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais

Dizer que a vida vai ser sempre assim

E, finda a espera, ouvir na primavera

Alguém chamar por mim.

 

 

De Repente (Vinícius de Morais)

 

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

 

 

A Rosa de Hiroshima (Vinícius de Morais)

 

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti- rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

 

Pela Luz dos Olhos Teus (Vinícius de Morais)

 

Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só pra me provocar

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar,

Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

 

Vinícius de Morais

 

Eu sei e você sabe

Já que a vida quis assim

Que nada nesse mundo levará você de mim

Eu sei e você sabe

Que a distância não existe

Que todo grande amor

Só é bem grande se for triste

Por isso meu amor

Não tenha medo de sofrer

Que todos os caminhos

Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar

Assim como a Canção, só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem, só acontece se chover

Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer

Assim como viver sem ter amor, não é viver

Não há você sem mim

E eu não existo sem você!

 

Noturno (Antero de Quental)

 

Espírito que passas, quando o vento 

Adormece no mar e surge a Lua, 

Filho esquivo da noite que flutua, 

Tu só entendes bem o meu tormento... 

Como um canto longínquo - triste e lento- 

Que voga e sutilmente se insinua, 

Sobre o meu coração que tumultua, 

Tu vestes pouco a pouco o esquecimento... 

A ti confio o sonho em que me leva 

Um instinto de luz, rompendo a treva, 

Buscando. entre visões, o eterno Bem. 

E tu entendes o meu mal sem nome, 

A febre de Ideal, que me consome, 

Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!  

 

O Que Diz A Morte (Antero de Quental) 

 

Deixai-os vir a mim, os que lidaram; 

Deixai-os vir a mim, os que padecem; 

E os que cheios de mágoa e tédio encaram 

As próprias obras vãs, de que escarnecem... 

Em mim, os sofrimentos que não saram, 

Paixão, dúvida e mal, se desvanecem. 

As torrentes da dor, que nunca param, 

Como num mar, em mim desaparecem. 

Assim a Morte diz. Verbo velado, 

Silencioso intérprete sagrado 

Das cousas invisíveis, muda e fria, 

É, na sua mudez, mais retumbante 

Que o clamoroso mar; mais rutilante,

 Na sua noite, do que a luz do dia.  

 

Oceano (Antero de Quental) 

 

Junto do mar, que erguia gravemente 

À trágica voz rouca, enquanto o vento 

Passava como o voo do pensamento 

Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

 Junto do mar sentei-me tristemente, 

Olhando o céu pesado e nevoento, 

E interroguei, cismando, esse lamento 

Que saía das coisas, vagamente...

 Que inquieto desejo vos tortura, 

Seres elementares, força obscura? 

Em volta de que ideia gravitais? 

Mas na imensa extensão, onde se esconde 

O Inconsciente imortal, só me responde 

Um bramido, um queixume, e nada mais... 

 

Meu Sonho (Cecília Meireles)

 

Parei as águas do meu sonho 

para teu rosto se mirar. 

Mas só a sombra dos meus olhos 

ficou por cima, a procurar... 

Os pássaros da madrugada 

não têm coragem de cantar, 

vendo o meu sonho interminável 

e a esperança do meu olhar. 

Procurei-te em vão pela terra, 

perto do céu, por sobre o mar. 

Se não chegas nem pelo sonho, 

por que insisto em te imaginar? 

Quando vierem fechar meus olhos, 

talvez não se deixem fechar. 

Talvez pensem que o tempo volta, 

e que vens, se o tempo voltar.

  

Motivo (Cecília Meireles) 

 

Eu canto porque o instante existe 

e a minha vida está completa. 

Não sou alegre nem triste: 

sou poeta. 

Irmão das coisas fugidias, 

não sinto gozo nem tormento. 

Atravesso noites e dias 

no vento. 

Se desmorono ou edifico, 

se permaneço ou me desfaço, 

- não sei, não sei. Não sei se fico 

ou passo. 

Sei que canto. E a canção é tudo. 

Tem sangue eterno e asa ritmada.

 E sei que um dia estarei mudo: 

- mais nada 

 

Traze-me (Cecília Meireles) 

 

Traze-me um pouco das sombras serenas 

que as nuvens transportam por cima do dia! 

Um pouco de sombra, apenas, 

- vê que nem te peço alegria. 

Traze-me um pouco da alvura dos luares 

que a noite sustenta no teu coração! 

A alvura, apenas, dos ares: 

- vê que nem te peço ilusão. 

Traze-me um pouco da tua lembrança, 

aroma perdido, saudade da flor! 

-Vê que nem te digo - esperança! 

-Vê que nem sequer sonho - amor! 

 

Timidez (Cecília Meireles) 

 

Basta-me um pequeno gesto, 

feito de longe e de leve, 

para que venhas comigo 

e eu para sempre te leve...

 - mas só esse eu não farei. 

Uma palavra caída 

das montanhas dos instantes 

desmancha todos os mares 

e une as terras mais distantes... 

- palavra que não direi. 

Para que tu me adivinhes, 

entre os ventos taciturnos, 

apago meus pensamentos, 

ponho vestidos noturnos, 

- que amargamente inventei. 

E, enquanto não me descobres, 

os mundos vão navegando 

nos ares certos do tempo, 

até não se sabe quando... 

e um dia me acabarei. 

 

Canção (Cecília Meireles) 

 

Não te fies do tempo nem da eternidade, 

que as nuvens me puxam pelos vestidos 

que os ventos me arrastam contra o meu desejo! 

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, 

que amanhã morro e não te vejo! 

Não demores tão longe, em lugar tão secreto, 

nácar de silêncio que o mar comprime, 

o lábio, limite do instante absoluto! 

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, 

que amanhã eu morro e não te escuto! 

Aparece-me agora, que ainda reconheço 

a anêmona aberta na tua face

 e em redor dos muros o vento inimigo... 

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, 

que amanhã eu morro e não te digo... 

 

Serenata (Cecília Meireles) 

 

" ... Permita que eu feche os meus olhos, 

pois é muito longe e tão tarde! 

Pensei que era apenas demora, 

e cantando pus-me a esperar-te. 

Permite que agora emudeça: 

que me conforme em ser sozinha. 

Há uma doce luz no silencio, 

e a dor é de origem divina. 

Permite que eu volte o meu rosto 

para um céu maior que este mundo, 

e aprenda a ser dócil no sonho 

como as estrelas no seu rumo ... " 

 

Cecília Meireles 

 

O meu amor não tem 

importância nenhuma. 

Não tem o peso nem 

de uma rosa de espuma! 

Desfolha-se por quem? 

Para quem se perfuma? 

O meu amor não tem 

importância nenhuma.

  

Ou Isto Ou Aquilo (Cecília Meireles) 

 

Ou se tem chuva e não se tem sol, 

ou se tem sol e não se tem chuva! 

Ou se calça a luva e não se põe o anel, 

ou se põe o anel e não se calça a luva! 

Quem sobe nos ares não fica no chão, 

quem fica no chão não sobe nos ares. 

É uma grande pena que não se possa 

estar ao mesmo tempo nos dois lugares! 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, 

ou compro o doce e gasto o dinheiro. 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... 

e vivo escolhendo o dia inteiro! 

Não sei se brinco, não sei se estudo, 

se saio correndo ou fico tranquilo. 

Mas não consegui entender ainda 

qual é melhor: se é isto ou aquilo. 

 

4º Motivo Da Rosa (Cecília Meireles) 

 

Não te aflijas com a pétala que voa: 

também é ser, deixar de ser assim. 

Rosas verá, só de cinzas franzidas, 

mortas, intactas pelo teu jardim. 

Eu deixo aroma até nos meus espinhos 

ao longe, o vento vai falando de mim. 

E por perder-me é que vão me lembrando, 

por desfolhar-me é que não tenho fim. 

 

O Enterro Da Cigarra (Olegário Mariano)

 

As formigas levavam-na... Chovia... 

Era o fim... Triste Outono fumarento... 

Perto, uma fonte, em suave movimento, 

Cantigas de água trêmula carpia. 

Quando eu a conheci, ela trazia 

Na voz um triste e doloroso acento. 

Era a, cigarra de maior talento, 

Mais cantadeira desta freguesia. 

Passa o cortejo entre árvores amigas... 

Que tristeza nas folhas.., que tristeza 

Que alegria nos olhos das formigas! 

Pobre cigarra! quando te levavam, 

Enquanto te chorava a Natureza, 

Tuas irmãs e tua mãe cantavam... 

 

Kremmer (Olegário Mariano) 

 

Foi um dia de kremesse. 

Depois de rezá três prece 

Pra que os santo me ajudasse, 

Deus quis que nós se encontrasse 

Pra que nós dois se queresse, 

Pra que nós dois se gostasse. 

Inté os sinos dizia 

Na matriz da freguezia 

Que embora o tempo corresse,  

Que nós sempre se queresse, 

Que nós sempre se gostasse. 

Um dia, na feira, eu disse 

Com a voz cheia de meiguice 

Nos teus ouvido, bem doce: 

Rosinha si eu te falasse... 

Si eu te beijasse na face... 

Tu me dás-se um beijo? - Dou-se. 

E toda a vez que nos vemo, 

A um só tempo perguntemo 

Tu a mim, eu a vancê: 

Quando é que nós se casemo, 

Nós que tanto se queremo, 

Pro que esperamos pro quê? 

Vancê não falou comigo 

E eu com vancê, pro castigo, 

Deixei de falá também, 

Mas, no decorrê dos dia, 

Vancê mais bem me queria 

E eu mais te queria bem. 

- Cabôco, vancê não presta, 

Vancê tem ruga na testa,

 Veneno no coração. 

- Rosinha, vancê me xinga, 

Morde a surucucutinga, 

Mas fica o rasto no chão. 

E de uma vez, (bem me lembro!) 

Resto de safra... Dezembro... 

Os carro afundando o chão. 

Veio um home da cidade 

E ao curuné Zé Trindade 

Foi pedi a sua mão. 

Peguei no meu cravinote 

Dei quatro ou cinco pinote 

Burricido como o quê, 

Jurgando, antes não jurgasse, 

Que tu de mim não gostasse, 

Quando eu só amo a vancê. 

Esperei outra kremesse 

Que o seu vigário viesse 

Pra que nós dois se casasse. 

Mas Deus não quis que assim sesse 

Pro mais que nós se queresse 

Pro mais que nós se gostasse. 

 

Boêmia Triste (Olegário Mariano) 

 

Éramos três em torno à mesa. Três que a vida, 

Na sua trama de ilusões urdida, 

Juntou ao mesmo afeto e na mesma viuvez... 

Um músico, um pintor, e um poeta. Éramos três... 

O primeiro falou: - Veio da melodia

 De um noturno, a mulher que me fez triste assim. 

Amei-a como se ama a fantasia 

E ela sendo mulher fugiu de mim... 

Hoje tenho a alma como um piano vivo 

Que mão nenhuma acordará talvez... 

É por esse motivo que eu sou mais desgraçado que vocês... 

Disse o segundo: - Meu amigos, a sorte golpeou-nos, com a mais vil ingratidão 

À mim levou-me à morte, o que eu tinha de melhor 

A ilusão de que a vida era ilusão. 

A força, a graça, o espírito, a beleza 

A estátua humana olímpica e pagã 

Espelho, natural da natureza 

Nota da flauta mágica de Pan 

Morreu com ela a vida, a luz, a cor 

Manhã de sol e tarde de ametista 

A paleta e a esperança de um pintor... 

Todo o delírio de um impressionista. 

Fez-se um grande silêncio em torno à mesa, 

Silêncio de saudade e tristeza...

 O terceiro baixou os olhos devagar 

Disse um nome baixinho e não pode falar...  

 

A Canção da Saudade (Olegário Mariano) 

 

Que tarde imensa e fria! 

Lá fora o vento rodopia... 

Dança de folhas... Folhas, sonhos vãos, 

que passam, nesta dança transitória, 

deixando em nós, no fundo da memória, 

o olhar de uns olhos e a carícia de umas mãos. 

Ante a moldura de um retrato antigo, 

põe-se a gente a evocar coisas emocionais. 

Tolda-se o olhar, o lábio treme, a alma se aperta, 

tudo deserto... a vide em torno tão deserta 

que vontade nos vem de sofrer mais! 

Depois, há sempre um cofre e desse cofre 

tiramos velhas cartas, devagar... 

É a volúpia enervante de quem sofre: 

ler velhas cartas e depois chorar. 

Que tarde imensa e fria! 

Nunca mais te verei... Nunca mais me verás... 

Lá fora o vento rodopia... 

Que desejo me vem de sofrer mais! 

 

 

O Enamorado da Vida (Olegário Mariano) 

 

Eu sou um enamorado da Vida! 

Para sentir melhor o céu na minha casa, 

Plantei a minha casa entre o mar e a montanha. 

Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas, 

A lua desce a mim numa carícia estranha. 

Bebo as estrelas de mais perto... Abraço 

Todo o corpo do céu num simples movimento. 

E, quando chove, sinto a torrente das chuvas 

Trazendo da montanha, em seu penacho de águas, 

Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento. 

Eu sou um enamorado da Vida! 

Amo-a por tudo quanto ela me pode dar: 

A água fresca da fonte, a carícia da sombra, 

E até a calma silenciosa e mansa 

Desse crepúsculo que baixa devagar. 

Em cada mão de folha a minha boca bebe 

O orvalho da manhã como um suave licor. 

E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve 

Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume 

Que vem do amor e que me leva para o amor 

Eu sou um enamorado da Vida! 

Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer 

Colinas, penetrar o coração dos vales, 

Relinchando feliz como um potro selvagem 

Que solta as crinas no ar para melhor correr;

 Ou retesar as asas brancas de gaivota 

E atirar-me na fúria incrível das procelas; 

Beber em haustos toda a glória do mar alto,

 Rolar no bojo dos batéis desarvorados 

Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas 

Vida! Quero viver todas as tuas horas, 

As que prendi na mão e as que nunca alcancei. 

Ser um pouco de ti no espelho das paisagens 

Para, quando morrer, levar dentro dos olhos

 A beleza imortal de tudo quanto amei. 

 

O Conselho das Árvores (Olegário Mariano) 

 

Sofro, luz dos meus olhos, quando dizes 

Que a vida não te alenta nem conforta. 

Olha o exemplo das árvores felizes 

Dentro da solidão da noite morta. 

Que lhes importa a dor, que lhes importa 

O drama que há no fundo das raízes? 

Não sentem quando o vento os ramos corta 

E as folhas leva em várias diretrizes? 

Que lhes importa a maldição do outono 

E os dedos envolventes da garoa,

 Se dão sombra às taperas no abandono?!... 

Levanta os braços para o firmamento 

E canta a vida porque a vida é boa 

Mesmo esmagada pelo sofrimento. 

 

 

Deixa o Olhar do Mundo (Olavo Bilac)

 

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse 

Teu grande amor que é teu maior segredo! 

Que terias perdido, se, mais cedo, 

Todo o afeto que sentes se mostrasse? 

Basta de enganos! 

Mostra-me sem medo 

Aos homens, afrontando-os face a face: 

Quero que os homens todos, quando eu passe,

 Invejosos, apontem-me com o dedo. 

Olha: não posso mais! 

Ando tão cheio 

Deste amor, que minh'alma se consome 

De te exaltar aos olhos do universo... 

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: 

E, fatigado de calar teu nome, 

Quase o revelo no final de um verso. 

 

Em Mim Também (Olavo Bilac) 

 

Em mim também, que descuidado vistes, 

Encantado e aumentando o próprio encanto, 

Tereis notado que outras cousas canto 

Muito diversas das que outrora ouvistes. 

Mas amastes, sem dúvida ... Portanto, 

Meditai nas tristezas que sentistes: 

Que eu, por mim, não conheço cousas tristes, 

Que mais aflijam, que torturem tanto. 

Quem ama inventa as penas em que vive; 

E, em lugar de acalmar as penas, antes 

Busca novo pesar com que as avive.

 Pois sabei que é por isso que assim ando: 

que é dos loucos somente e dos amantes

 na maior alegria andar chorando 

 

Primavera (Olavo Bilac) 

 

Ah! quem nos dera que isso, como outrora, 

inda nos comovesse! Ah! Quem nos dera 

que inda juntos pudéssemos agora 

ver o desabrochar da primavera! 

Saíamos com os pássaros e a aurora, 

e, no chão, sobre os troncos cheios de hera, 

sentavas-te sorrindo, de hora em hora: 

"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!" 

E esse corpo de rosa recendia, 

e aos meus beijos de fogo palpitava, 

alquebrado de amor e de cansaço... 

A alma da terra gorjeava e ria... 

Nascia a primavera... E eu te levava, 

primavera de carne, pelo braço! 

 

Remorso (Olavo Bilac) 

 

Às vezes, uma dor me desespera...

Nestas ânsias e dúvidas em que ando. 

Cismo e padeço, neste outono, quando 

Calculo o que perdi na primavera. 

Versos e amores sufoquei calando, 

Sem os gozar numa explosão sincera... 

Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera 

Mais viver, mais penar e amar cantando! 

Sinto o que desperdicei na juventude; 

Choro, neste começo de velhice, 

Mártir da hipocrisia ou da virtude, 

Os beijos que não tive por tolice, 

Por timidez o que sofrer não pude, 

E por pudor os versos que não disse! 

 

Ao Coração Que Sofre (Olavo Bilac) 

 

Ao coração que sofre, separado 

Do teu, no exílio em que a chorar me vejo, 

Não basta o afeto simples e sagrado 

Com que das desventuras me protejo. 

Não me basta saber que sou amado, 

Nem só desejo o teu amor: desejo 

Ter nos braços teu corpo delicado, 

Ter na boca a doçura de teu beijo. 

E as justas ambições que me consomem 

Não me envergonham: pois maior baixeza 

Não há que a terra pelo céu trocar; 

E mais eleva o coração de um homem 

Ser de homem sempre e, na maior pureza, 

Ficar na terra e humanamente amar. 

 

 

Velhas Árvores (Olavo Bilac) 

 

Olha estas velhas árvores, mais belas 

Do que as árvores moças, mais amigas, 

Tanto mais belas quanto mais antigas,

 Vencedoras da idade e das procelas... 

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas 

Vivem, livres da fome e de fadigas: 

E em seus galhos abrigam-se as cantigas 

E os amores das aves tagarelas. 

Não choremos, amigo, a mocidade! 

Envelheçamos rindo. Envelheçamos 

Como as árvores fortes envelhecem, 

Na glória de alegria e da bondade, 

Agasalhando os pássaros nos ramos,

 Dando sombra e consolo aos que padecem! 

 

Ouvir Estrelas (Olavo Bilac) 

 

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo 

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

 Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto 

E abro as janelas, pálido de espanto... 

E conversamos toda a noite, enquanto 

A via láctea, como um pálio aberto, 

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 

Inda as procuro pelo céu deserto. 

Direis agora: "Tresloucado amigo! 

Que conversas com elas? Que sentido

 Tem o que dizem, quando estão contigo?" 

E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 

Pois só quem ama pode ter ouvido 

Capaz de ouvir e de entender estrelas." 

 

(Olavo Bilac) 

 

Este que um Deus cruel arremessou à vida 

Marcando com um sinal da sua maldição 

Este que desabrochou com uma erva má 

Nascida apenas para os pés ser calcada no chão. 

De motejo em motejo arrasta a alma ferida 

Sem constância no amor dentro do coração, 

Sente, crespa crescer a selva retorcida 

Dos pensamentos maus, filhos da solidão. 

Longos dias sem sol. Noites de eterno luto. 

Alma cega, perdida à-toa no caminho, 

Roto casco de nau desprezado no mar 

E árvore acabará sem nunca dar um fruto. 

E homem há de morrer como viveu: 

Sozinho, sem ar, sem luz, sem Deus 

Sem fé, sem pão, sem lar. 

 

A Boneca (Olavo Bilac) 

 

Deixando a bola e a peteca, 

Com que inda há pouco brincavam, 

Por causa de uma boneca, 

Duas meninas brigavam. 

Dizia a primeira: "É minha!" 

- "É minha!" a outra gritava; 

E nenhuma se continha, 

Nem a boneca largava. 

Quem mais sofria (coitada!) 

Era a boneca. Já tinha 

Toda a roupa estraçalhada, 

E amarrotada a carinha.

 Tanto puxaram por ela, 

Que a pobre rasgou-se ao meio, 

Perdendo a estopa amarela 

Que lhe formava o recheio. 

E, ao fim de tanta fadiga, 

Voltando à bola e à peteca, 

Ambas, por causa da briga, 

Ficaram sem a boneca ...

  

Um Beijo (Olavo Bilac) 

 

Foste o beijo melhor da minha vida,

 ou talvez o pior...Glória e tormento, 

contigo à luz subi do firmamento, 

contigo fui pela infernal descida! 

Morreste, e o meu desejo não te olvida: 

queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, 

e do teu gosto amargo me alimento, 

e rolo-te na boca malferida. 

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, 

batismo e extrema-unção, naquele instante 

por que, feliz, eu não morri contigo? 

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,

 beijo divino! e anseio delirante, 

na perpétua saudade de um minuto...

  

Inania Verba (Olavo Bilac) 

 

Ah! Quem há de exprimir, alma impotente e escrava, 

O que a boca não diz, o que a mão não escreve? 

- Ardes, sangras, pregada à tua cruz e, em breve, 

Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava... 

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: 

A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve... 

E a Palavra pesada, abafa a Ideia leve, 

Que, perfume e clarão, refulgia e voava. 

Quem o molde achará para a expressão de tudo? 

Ai! Quem há de dizer as ânsias infinitas 

Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta? 

E a ira muda? e o asco mudo? E o desespero mudo? 

E as palavras de fé que nunca foram ditas?

 E as confissões de amor que morrem na garganta?

 

Morrer...Dormir... (Francisco Otaviano)

 

Morrer...Dormir... Nada mais! Termina a vida 

E com ela terminam nossas dores: 

Um punhado de terra, algumas flores, 

E às vezes uma lágrima fingida! 

Sim! Minha morte não será sentida; 

Não deixo amigos, nem tive amores, 

Ou se os tive, mostraram-se traidores, 

Algozes vis de uma alma consumida. 

Tudo é podre no mundo. Que me importa 

Que ele amanhã se desabe, 

Se a natureza para mim é morta! 

É tempo já que meu exílio acabe... 

Vem, pois, ó morte, ao nada me transporta! 

Morrer...Dormir...Talvez sonhar...Quem sabe? 

 

Recordações (Francisco Otaviano) 

 

Oh! se te amei! Toda a manhã da vida 

Gastei-a em sonhos que de ti falavam! 

Nas estrelas do céu via teu rosto, 

Ouvia-te nas brisas que passavam: 

Oh! se te amei! Do fundo de minh’alma 

Imenso, eterno amor te consagrei... 

Era um viver em cisma de futuro! 

Mulher! oh! se te amei! 

Quando um sorriso os lábios te roçava, 

Meu Deus! que entusiasmo que sentia! 

Láurea coroa de virente rama 

Inglório bardo, a fronte me cingia; 

À estrela alva, às nuvens do Ocidente, 

Em meiga voz teu nome confiei. 

Estrela e nuvens bem no seio o guardam;

 Mulher! oh! se te amei! 

Oh! se te amei! As lágrimas vertidas,

 Alta noite por ti; atroz tortura 

Do desespero d’alma, e além, no tempo, 

Uma vida sumir-se na loucura...

 Nem aragem, nem sol, nem céu, nem flores, 

Nem a sombra das glórias que sonhei... 

Tudo desfez-se em sonhos e quimeras... 

Mulher! oh! se te amei!  

 

Ilusões de Vida (Francisco Otaviano) 

 

Quem passou pela vida em branca nuvem 

E em plácido repouso adormeceu, 

Quem não sentiu o frio da desgraça, 

Quem passou pela vida e não sofreu, 

Foi espectro de homem - não foi homem, 

Só passou pela vida – não viveu. 

 

Querer (Pablo Neruda)

 

Não te quero senão porque te quero 

E de querer-te a não querer-te chego 

E de esperar-te quando não te espero 

Passa meu coração do frio ao fogo. 

Te quero só porque a ti te quero, 

Te odeio sem fim, e odiando-te rogo, 

E a medida de meu amor viageiro 

É não ver-te e amar-te como um cego. 

Talvez consumirá a luz de janeiro 

Seu raio cruel, meu coração inteiro, 

Roubando-me a chave do sossego. 

Nesta história só eu morro 

E morrerei de amor porque te quero, 

Porque te quero, amor, a sangue e a fogo. 

 

Nos Bosques, Perdido (Pablo Neruda) 

 

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro 

E aos lábios, sedento, levante seu sussurro: 

era talvez a voz da chuva chorando, 

um sino quebrado ou um coração partido. 

Algo que de tão longe me parecia 

oculto gravemente, coberto pela terra, 

um grito ensurdecido por imensos outonos,

 pela entreaberta e úmida treva das folhas. 

Porém ali, despertando dos sonhos do bosque, 

o ramo de avelã cantou sob minha boca

 E seu odor errante subiu para o meu entendimento

 como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes 

que abandonei, a terra perdida com minha infância, 

e parei ferido pelo aroma errante. 

Não o quero, amada. 

Para que nada nos prenda 

para que não nos una nada. 

Nem a palavra que perfumou tua boca 

nem o que não disseram as palavras. 

Nem a festa de amor que não tivemos 

nem teus soluços junto à janela... 

 

Pablo Neruda 

 

Para meu coração teu peito basta, 

para que sejas livre, minhas asas. 

De minha boca chegará até o céu 

o que era adormecido na tua alma. 

Mora em ti a ilusão de cada dia 

e chegas como o aljôfar às corolas. 

Escavas o horizonte com tua ausência, 

eternamente em fuga como as ondas.

 Eu disse que cantavas entre vento 

como os pinheiros cantam, e os mastros 

Tu és como eles alta e taciturna. 

Tens a pronta tristeza de uma viagem. 

Acolhedora como um caminho antigo, 

povoam-te ecos e vozes nostálgicas. 

Despertei e por vezes emigram e fogem 

pássaros que dormiam em tua alma.

  

Pablo Neruda 

 

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho. 

Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora. 

Gira a noite sobra suas invisíveis rodas 

e junto a mim és pura como âmbar dormido. 

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos. 

Irás, iremos juntos pelas águas do tempo. 

Nenhuma mais viajará pela sombra comigo, 

só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua. 

Já tuas mãos abriram os punhos delicados 

e deixaram cair suaves sinais sem rumo,

 teus olhos se fecharam como duas asas cinzas. 

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva: 

a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino, 

e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.  

 

O Vento na Ilha (Pablo Neruda) 

 

Vento é um cavalo: 

ouve como ele corre 

pelo mar, pelo céu. 

Quer me levar: escuta 

como ele corre o mundo 

para levar-me longe. 

Esconde-me em teus braços 

por esta noite erma, 

enquanto a chuva rompe

 contra o mar e a terra 

sua boca inumerável. 

Escuta como o vento 

me chama galopando 

para levar-me longe. 

Como tua fronte na minha, 

tua boca em minha boca,

 atados nossos corpos 

ao amor que nos queima, 

deixa que o vento passe 

sem que possa levar-me. 

Deixa que o vento corra 

coroado de espuma, 

que me chame e me busque 

galopando na sombra, 

enquanto eu, protegido 

sob teus grandes olhos, 

por esta noite só 

descansarei, meu amor. 

 

Antes de Amar-te... (Pablo Neruda) 

 

Antes de amar-te, amor, nada era meu 

Vacilei pelas ruas e as coisas: 

Nada contava nem tinha nome: 

O mundo era do ar que esperava. 

E conheci salões cinzentos, 

Túneis habitados pela lua, 

Hangares cruéis que se despediam, 

Perguntas que insistiam na areia. 

Tudo estava vazio, morto e mudo, 

Caído, abandonado e decaído, 

Tudo era inalienavelmente alheio, 

Tudo era dos outros e de ninguém, 

Até que tua beleza e tua pobreza 

De dádivas encheram o outono. 

 

Ângela Adônica (Pablo Neruda) 

 

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura 

como se na margem de um oceano branco, 

como se no centro de uma ardente estrela 

de lento espaço. 

Do seu olhar largamente verde 

a luz caía como uma água seca, 

em transparentes e profundos círculos 

de fresca força. 

Seu peito como um fogo de duas chamas 

ardia em duas regiões levantado, 

e num duplo rio chegava a seus pés, 

grandes e claros. 

Um clima de ouro madrugava apenas 

as diurnas longitudes do seu corpo 

enchendo-o de frutas estendidas 

e oculto fogo. 

 

Walking Around (Pablo Neruda) 

 

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, 

do meu cabelo e até da minha sombra. 

Acontece que me canso de ser homem. 

Todavia, seria delicioso 

assustar um notário com um lírio cortado 

ou matar uma freira com um soco na orelha. 

Seria belo 

ir pelas ruas com uma faca verde 

e aos gritos até morrer de frio. 

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, 

com fúria e esquecimento, 

passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas, 

e pátios onde há roupa pendurada num arame: 

cuecas, toalhas e camisas que choram

lentas lágrimas sórdidas. 

 

Os Teus Pés (Pablo Neruda) 

 

Quando não te posso contemplar 

Contemplo os teus pés. 

Teus pés de osso arqueado, 

Teus pequenos pés duros, 

Eu sei que te sustentam 

E que teu doce peso 

Sobre eles se ergue. 

Tua cintura e teus seios, 

A duplicada purpura

 Dos teus mamilos, 

A caixa dos teus olhos 

Que há pouco levantaram voo, 

A larga boca de fruta, 

Tua rubra cabeleira, 

Pequena torre minha. 

Mas se amo os teus pés 

É só porque andaram 

Sobre a terra e sobre 

O vento e sobre a água, 

Até me encontrarem.

  

 

 

 

 

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